Escrever sobre o Yoga é como dissertar a respeito de uma noite estrelada. Com o olhar fixo na imensidão celeste podemos pensar matematicamente sobre a enorme distância que nos separa daquelas diminutas luzes cintilantes, tentando conceber o que é um ano-luz. Com um coração mais poético podemos escrever, como Neruda: “La noche está estrellada e tiritam azules los astros a lo lejos...” Sedentos de aventura podemos nos imaginar navegando rumo às profundezas desconhecidas do cosmos sideral ou, com uma visão mais prática, podemos imaginar procedimentos concretos para explorar e aproveitar os recursos minerais presentes no subsolo de outros planetas. Podemos, ainda, filosofar, chorar de emoção, entregar-nos extasiados à contemplação da beleza, tentar nomear as diferentes constelações, e tantas coisas mais!
O mesmo ocorre quando tentamos falar sobre o Yoga: o coração, a mente, os músculos, os órgãos internos e cada aspecto de nossa personalidade tentam exprimir a sua vivência nesse antigo caminho. E cada definição é parcialmente verdadeira, e cada colocação expressa um aspecto diferente desse diamante de muitas facetas que é o Yoga, mas nenhuma delas exaure a totalidade de sua luz.
O praticante de Yoga, quando questionado sobre as aulas, tenta dar uma descrição abrangente, mas dificilmente consegue transmitir mais do que algumas características isoladas que muito distam da sua intensa experiência pessoal; restando-lhe apenas concluir sua confusa explanação com a clara certeza: É muito bom, pratique. Mas existem algumas colocações que podem nos ajudar a precisar conceitualmente a nossa vivência pessoal e subjetiva do Yoga. A conhecida definição etimológica diz que Yoga vem da raiz sânscrita Yuj traduzida corno União, Junção, Jugo ou Integração . Essa União é referida a diferentes coisas conforme o enfoque utilizado.
Em termos físicos, o Yoga busca a integração harmoniosa de todos os processos corporais, em outras palavras: saúde. Energeticamente falando, o Yoga se propõe lograr o desbloqueio dos canais de circulação da energia, a expulsão das energias destrutivas e o fortalecimento das construtivas, o aumento do nível de vitalidade normal, unindo o indivíduo a sua fonte interna de vida. Em termos psicológicos, Yoga busca superar a divisão e conflitos interiores, colocando as neuroses sob o jugo da paz e da verdade e construindo uma personalidade integrada onde cada aspecto contribua para o bem-estar global da pessoa. Desde um enfoque espiritual, o Yoga é o caminho da união com o nosso centro interno de sabedoria, de serenidade, de força e de amor.
Existe, ainda, uma outra maneira de interpretar o sentido da palavra Yoga: atrelar os cavalos a um carro. Voltemos no tempo para entender melhor esta definição. Por volta do ano 1500 a.C. grupos indo-arianos, nômades e pastoris, invadem o Norte da Índia destruindo a declinante civilização local, predominantemente agrícola. Esses conquistadores semi-bárbaros possuíam uma arma de guerra inédita e mortal na época com a qual renderam e exterminaram seus oponentes: carros de combate puxados por cavalos, dentro dos quais um guerreiro lutava com seus arcos e flechas. Os arreios que controlavam os cavalos, porém, eram muito rudimentares, o que tornava extremamente difícil guiar o carro, ainda mais durante o fragor dos combates. 0 carro era conduzido pelo auriga, habilidoso profissional de enorme prestígio na época. As ações de arrear e conduzir os cavalos eram descritas pela palavra Yug: Jungir , Atrelar , Unir (os cavalos) .
Chegamos, assim, a um significado muito interessante para a palavra Yoga. Ela denomina o intenso exercício que uma pessoa realiza para colocar sob o seu comando forças que, até esse momento, estavam fora de seu controle, visando conquistar as suas metas. 0 yogui é o auriga que, controlando as forças cegas do seu ser, conduz sua alma a vitória. Meditando na imagem desse auriga da Antigüidade, treinando suas habilidades repetidas vezes, desenvolvendo pouco a pouco suas capacidades, podemos compreender melhor o sentido de mergulhar semanalmente nas sensações do corpo, nas emoções e pensamentos inquietos da mente, podemos entender o processo gradual através do qual vamos obtendo maior capacidade de conduzir adequadamente o carro da nossa vida. Dentro desta abordagem, torna-se muito ilustrativo o seguinte verso do Rig-Veda: Os brâhmanes -sacerdotes-- arreiam a mente, de fato eles arreiam os pensamentos sagrados.
E na Katha Upanishad encontramos a seguinte alegoria: Sabei que o Eu é o cavaleiro, e que o corpo é a carruagem; que o intelecto é o cocheiro e que a mente são as rédeas. Os sentidos - dizem os sábios- são os cavalos; as estradas por onde passam são os labirintos do desejo. Os sábios consideram o Eu como aquele que se deleita quando está unido ao corpo, aos sentidos e a mente. Quando um homem não possui discernimento e sua mente está desgovernada, seus sentidos são incontroláveis, como os cavalos rebeldes de um cocheiro. Porém quando um homem possui discernimento e sua mente esta controlada, seus sentidos, como os cavalos bem domados de um cocheiro, obedecem alegremente às rédeas.
Refletindo sobre essas imagens observamos que existem regras básicas para obter um bom controle do carro. Mas cada auriga adapta esses princípios básicos às suas próprias características pessoais, ao tipo de arreios que possui, à natureza dos cavalos, ao tipo de relevo, etc. De modo semelhante, no decorrer dos séculos, o Yoga Eterno foi sendo apresentado com diferentes características, dependendo do mestre, da época, do lugar. Surgiram, assim, inúmeras variações: umas trabalhando mais com o corpo (Hatha Yoga), outras agindo principalmente sobre a mente (Raja Yoga), umas disciplinando os sentimentos (Bhakti Yoga), outras o intelecto (Jnana Yoga) e outras a conduta (Karma Yoga).
A pratica predominante de uma técnica ou de outra dava origem a uma nova linhagem, cada uma com seus procedimentos devidamente sistematizados, seus nobres mestres e destacados discípulos, todas coexistindo em paz; segundo reza o antigo ditado: Diversidade de caminhos e uma única Grande Meta Diante de tantas possibilidades sedutoras surge uma pergunta inevitável: E qual é o melhor caminho? Para responde-la e preciso situar-nos, contextualizar-nos; pois se bem existem princípios básicos e universais -veracidade, amor, honestidade, moderação, humildade, etc. - as técnicas e procedimentos que surgem a partir de tais princípios são mais específicos e focalizados. Considerando os objetivos de vida, a situação física, emocional, psicológica, familiar e social, levando em conta a idade, as características pessoais, a intensidade de esforço que estamos dispostos a investir, etc., o caminho mais adequado será aquele que melhor atenda às nossas necessidades.
Aproximar-se do Yoga e como se aproximar da noite infinita. Generosos e inesgotáveis, ambos dão o melhor de si. Todos recebem, cada um segundo sua capacidade. Quem traz uma xícara e quem traz uma jarra: ambos saem preenchidos.
Prof. Andrês De Nuccio
Diretor do Instituto Ísvara
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Tel: (19) 3203-1918
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